Há duas espécies de investigação: a investigação policial e o jornalismo de investigação. Porque a Justiça é cega, a investigação policial deu em ser coxa. Para contrariar, o jornalismo de investigação é célere, capaz até de relatar os factos antes de eles ocorrerem. A primeira apura os factos, se chegar a apurá-los, para que se faça justiça; para a segunda o apurar factos é a razão da sua existência, como a do cozinheiro que apura os seus pratos para que os comensais, eles incluídos, se banqueteiem.
Proponho um novo tipo de investigação: o bloguismo de investigação.
A investigação policial tem um problema: devido ao segredo de justiça sabe-se tudo, o que é e o que não é. O jornalismo de investigação tem o problema contrário: é tudo tão transparente que não fica nada para se ver; apenas a memória, passados alguns tempos, de que se falou de qualquer coisa.
O bloguismo de investigação não vai à procura dos factos. Serve-se dos abundantes factos dados à luz pelo segredo de justiça ou pelo delírio dos jornalistas, aceita-os como meros enunciados e analisa e discute a sua verosimilhança. Ou tenta descortinar o seu significado. Para o blogger a verdade deve ter uma dimensão estética: o que interessa que um enunciado seja falso se for bonito?
Vou dar um exemplo baseado no caso Freeport.
De acordo com a Lógica, que não admite senão a verdade ou falsidade da proposição (o terceiro excluido), ou houve corrupção (em que estão envolvidos decisores políticos) ou não houve (em que não estão envolvidos decisores políticos); se não houve corrupção, ou houve tentativa de corrupção ou não houve; se houve tentativa de corrupção, a corrupção não passou do estado de tentativa por oposição dos decisores aliciados ou por inépcia ou outra qualquer incapacidade dos corruptores. Para simplificar: ou ele há coisa, ou não há nada.
Dir-me-ão que eu não devo excluir o terceiro, que o terceiro é muito português, traduzido muitas vezes no "nim". Por exemplo, todo o português concorda que um professor (um puto que cresceu na idade e nunca chegou a sair da escola) tem capacidade para avaliar os putos novos mas não tem capacidade para se avaliar a si próprio ou os seus pares, o que é deveras estranho. Ainda que um barbeiro não consiga cortar o cabelo a si próprio ainda vai. Mas, como dizia, é admissível afirmar, em português castiço e fadista, que, entre haver luvas e não haver, há a hipótese de haver uma gorjeta. Não alinho neste tipo de lógica porque assim jamais poderei colaborar com os bloguistas ingleses no apuramento da verdade. Portanto, cada enunciado deverá ser considerado, depois de um apuramento exaustivo, verdadeiro ou falso. Salvo se for destituído de sentido como a maior parte dos enunciados jornalísticos.
Então, "Sócrates foi corrupto" ou "Sócrates não foi corrupto". Não vamos entender as proposições em sentido abstracto: por exemplo, "Sócrates é por índole uma pessoa corrupta" - e as trapalhadas com as habilitações e os projectos de engenharia seriam a prova cabal de uma tal natureza; ou "Sócrates provém de uma família corrupta"; ou "Sócrates é cidadão de um país de corruptos". Tais proposições desafiam a lógica e a última apetece-me resolvê-la ao tabefe.
Se Sócrates não foi corrupto no affair Freeport então estamos perante uma campanha negra e apetece perguntar: Quem tramou Sócrates?
Se Sócrates foi corrupto no affair Freeport (chamemos-lhe Alcochetegate) então estamos numa enrascada: num país de heróis à deriva num mar tormentoso e sem ninguém com perfil de timoneiro. E apetece perguntar: Quem tramou Portugal?
sábado, 31 de janeiro de 2009
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EU...
ResponderEliminarainda estou que nem sei,
sinto-me levitando.
Que ninguém
hoje me diga nada.
Ainda estou em transe,
após a montagem da exposição...
Imaginemos que era daqueles eventos
em que, havia inauguração com a artista presente, fotógrafos e comunicação social à volta...
Ui...nem quero pensar nisso!!!
Um acto de absoluta solidão
deu-me tanto prazer,
com uma imensidão
de pessoas, como seria?
Anuncio e faço o convite para a minha exposição no blog:
http://momentos-perfeitos.blogspot.com/
Lógico que entendo não ser possível todas as pessoas a quem participo, estarem presentes, no entanto gostaria que visses o convite, pois escolhi a melhor foto da exposição para o fazer.
Bom fim de semana
Huummmm...
ResponderEliminarse eu já levitava...
agora,depois de ler o seu comentário...
estou voando!!!
SIM
voando, como um pássaro, livre
sem me sentir presa.
O meu coração transborda de alegria pelas suas palavras e lindos elogios.
MUITO OBRIGADO.
Pois, eu sou mesmo assim...
também me sinto diferente, vivo de emoções,
muitas pessoas acusam-me de dizer o que penso,
mas não é defeito, é feitio!!!
Fico muito entusiasmada com o que faço, com o que já fiz, sou consciente e sinto-me orgulhosa dos meus feitos.
Só não entendi esta frase:
A Moita, apesar de tudo, sempre fica mais longe do que a Índia.
Em que parte da Índia? (A pergunta não é trivial dado que a Índia é do tamanho da Europa).
Beijinhos e muito obrigado.
Desculpa a kalinka é a Tulipa.
ResponderEliminarDeixa-me adivinhar: és professor de filosofia!!
ResponderEliminar(Texto delirante, como o estado deste país...)